Trabalho Colectivo e Contributo Individual

08.06.2019

A democracia interna do Partido encontra uma das suas mais elevadas e significativas expressões na direcção colectiva e no trabalho colectivo.

A democracia significa essencialmente a lei do colectivo contra as sobreposições e imposições individuais e sobretudo individualistas.

Isto não significa que a democracia menospreze o indivíduo, o seu valor e a sua contribuição. Ao contrário. A democracia estimula, motiva e mobiliza a capacidade, a intervenção, a vontade e a decisão do indivíduo. Mas, como grande mérito e superioridade do espírito e dos métodos democráticos, a democracia insere a contribuição de cada indivíduo no quadro da contribuição dos outros indivíduos, ou seja, insere a contribuição individual no quadro da contribuição colectiva, como parte constitutiva da capacidade, intervenção, vontade e decisão colectivas.

Isto é igualmente válido nas organizações de base e nos organismos mais responsáveis. Os dirigentes inserem também o seu trabalho individual no trabalho colectivo e as suas opiniões e propostas devem estar sempre abertas ao enriquecimento, ao melhoramento e à correcção.

No nosso Partido não encontra terreno favorável quem quer que compreenda a democracia como uma forma directa ou indirecta de fazer vingar as suas opiniões individuais.

De facto aparecem episodicamente camaradas que, em termos gerais, defendem a mais ampla democracia, de forma a que seja ouvida e atendida a opinião dos militantes, mas que de facto só reconhecem existir democracia quando impõem a sua opinião pessoal.

Se o colectivo a que pertencem concorda com as suas opiniões, a democracia (segundo eles) está a ser aplicada e então exigem naturalmente que todos cumpram o decidido, e contestam que outros camaradas continuem defendendo as suas opiniões próprias.

Mas, se o colectivo não aceita as suas opiniões e põe em prática as que são democraticamente decididas, então (segundo eles) já não existe democracia e, em nome da democracia, sentem-se no direito de, contra a opinião e as decisões do colectivo, defenderem as suas opiniões que não foram aceites.

Todos os membros do Partido têm o direito de expressar e defender a sua opinião no organismo a que pertencem, mas nenhum tem o direito de sobrepor ou querer sobrepor a sua opinião individual à opinião do colectivo, à opinião do seu organismo ou organização, à opinião do seu Partido.

ÁLVARO CUNHAL, O Partido com Paredes de Vidro

Os Olhos das PPP

05.06.2019

O Hospital de Cascais foi denunciado por falsificar dados para arrecadar mais dinheiro do Estado. Quando vos disserem maravilhas da gestão privada de hospitais do Serviço Nacional de Saúde (PPP), lembrem-se disto: os grandes grupos económicos (com o nome Grupo Mello Saúde ou Lusíadas Saúde) entram neste sector com um olho para o negócio lucrativo, outro para os estratagemas que assegurem que assim seja, e nenhum para as reais necessidades dos utentes que possam impedir esses ganhos financeiros e a sua acumulação. Nada disso é surpreendente. O Estado só pode garantir o acesso aos cuidados de saúde, como consta na nossa Constituição, se rejeitar a sua mercantilização e privatização.

Agustina, Literatura e Classe

03.06.2019

Agustina Bessa-Luís foi a maior escritora burguesa que Portugal produziu. Encontramos nos seus espantosos livros um retrato expressivo e rigoroso da burguesia nacional que não quis cumprir, por apatia ou temperamento, o seu papel histórico no desenvolvimento da sociedade portuguesa. Mas chamá-la de corajosa, como ouvi hoje na televisão, talvez seja um epíteto que a própria rejeitaria. É certamente mais adequado para descrever uma mulher como Maria Lamas (1893-1983) — que virou as costas à classe burguesa no seio da qual nasceu e contribuiu activamente, antes e depois da Revolução de Abril, para uma transformação social que apagasse as classes e os seus antagonismos.

Testemunho de uma Luta

02.06.2019

Domingo da Festa da Ascensão e a Filipa lê-me uma passagem de um livro que lhe ofereci há pouco tempo: um testemunho singular de participação na luta colectiva pelo 25 de Abril. “O Partido Comunista Português, única vanguarda organizada da classe operária, disputa eleições com força e com seriedade, mesmo sabendo que em certas zonas do País o caciquismo reacionário e a influência da falsa igreja católica (chamamos falsos católicos aos que sempre estiveram e estão do lado do poder económico), essas forças conservadoras e cheias de ódio têm impedido e impedem, até pela violência, o esclarecimento político do povo.” Faz parte de uma intervenção num Comício no Prior Velho em 1975 de Urbano Tavares Rodrigues — quem havia de ser? O livro chama-se 21 Anos de Luta (Minotauro, 2019).

Direitos das Mulheres - Combater a Discriminação

29.05.2019

Ignorância Agressiva

11.04.2019

Duas breves notas para memória futura sobre o debate de ontem em Silves.

Escreveu-me uma ex-aluna brasileira que muito prezo e com quem tenho mantido contacto. Tornou-se professora em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Contou-me que a meio de uma aula sobre o construtivismo russo, um aluno lhe perguntou, em tom de ameaça, se ela tinha autorização para falar sobre comunismo na sala de aula. Dizia ela, pesarosa, que “este é o Brasil em que vivemos”. São dias medonhos em que a ignorância se alia à agressividade.

A Medalha e as Leituras

08.04.2019

Duas breves notas para memória futura sobre o debate de ontem em Silves.

Antes do debate veio um camarada ter comigo. (Não falou durante a discussão. Esteve sempre atentamente à escuta.) Foi com um olhar comovido que me mostrou-me uma medalha de São Domingos que trazia consigo, proveniente de Fátima. Disse-me que a levou consigo para a guerra colonial em Angola. Fez trabalho de esclarecimento contra a guerra colonial entre os soldados portugueses, nunca disparou contra as forças de libertação angolanas, seguindo as orientações do Partido Comunista Português. Fez tudo isso com a imagem de São Domingos em mente, da qual recolheu forças para a persuasão e a capacidade de evitar o conflito armado.

Houve outro camarada que, durante as intervenções da assistência, afirmou que a ciência defende o evolucionismo e a Igreja Católica defende o criacionismo. Eu disse publicamente que tal não é verdade. Tive oportunidade de continuar a conversa com ele depois da sessão. Parece-me que quem coloca as coisas nestes termos está confuso sobre o âmbito da religião, mas também sobre o da ciência. Quando me falou de Adão e Eva percebi o queria dizer. Alguns populares ateístas contemporâneos têm argumentado o seguinte, promovendo a ignorância: a Bíblia foi lida de forma literalista durante séculos e, nalgumas comunidades, deixou de o ser à medida que a ciência avançou no conhecimento. A Bíblia não é um conjunto de livros científicos, mas religiosos. Basta ler Santo Ireneu (c. 130-220), figura dos primórdios do cristianismo, que fala sobre Adão e Eva como crianças imaturas, simbólicas de toda a humanidade a ganhar consciência de si própria, para perceber que são os fundamentalistas cristãos que se colocam fora da tradição cristã ao optarem por leituras literalistas, teologiamente paupérrimas.

O PCP, os Católicos e a Igreja (Silves)

13.03.2019

Democracia Resistente

07.02.2019

Em Portugal, o jornalismo livre foi uma conquista da Revolução de Abril. É um direito fundamental e um pilar da democracia. Como noutras áreas, há quem abuse desse direito, assim o menosprezando, e quem ataque e abale esse pilar. Isto apenas para dizer que uma democracia que resiste à TVI e à Ana Leal deve conseguir resistir a tudo e mais alguma coisa.

Uma Simples Pergunta

05.02.2019


Fot. EPA/Tiago Petinga. Augusto Santos Silva e Delcy Rodriguez.

Basicamente, o Estado da República Portuguesa rompeu relações com o Estado da República Bolivariana da Venezuela ao declarar que o Governo em plenas funções nesse país é ilegítimo. Tentou depois enviar armas para um Grupo de Operações Especiais para proteger a embaixada sem comunicar com o Governo que deslegitimou e que, como é evidente, controla as fronteiras do país. Foram recambiadas. No mundo real, esta questão complexa que marca a actualidade não se reduz ao simplismo confuso de “apoiar” este ou aquele, ou nem este nem aquele, mas pede ponderação e sentido de estado. Tudo isto é espantoso, no pior sentido da palavra. Em que é que estas decisões ajudam a grande comunidade portuguesa na Venezuela? Faltando ao seu dever, o Estado Português não parece ter feito esta simples pergunta antes ou depois de cada decisão.

Comunidade Internacional

29.01.2019

Comunidade internacional. Podia descrever uma estrutura multilateral de países e dos seus governos como as Nações Unidas. Não costuma ser assim. Noam Chomsky não se tem cansado de argumentar que, na linguagem utilizada pelos grandes meios de comunicação ocidentais, aquilo que designa é apenas uma pequena parte do mundo: os EUA, os seus aliados (às vezes nem todos) e os seus clientes (de novo, às vezes nem todos). Mas a expressão é repetida até à exaustão porque tem o peso de um suposto consenso global e esconjura a análise crítica.

Problemas Estruturais

24.01.2019

O trabalho da polícia responde a necessidades sociais de defesa da segurança, de direitos, e da democracia e deve basear-se na proximidade com as populações e na sua confiança. Ou seja, a polícia deve ser a primeira a não tolerar a presença de violentos racistas e xenófobos nas suas fileiras e a investigar qualquer elemento e denúncia que a indicie. Generalizar, não. É uma questão de respeito pela verdade. Mas não se confunda a generalização com a análise estrutural. Há quem teime em dizer que o racismo e a xenofobia não existem como problemas estruturais em Portugal, indissociáveis do passado colonial, da divisão de classes, da realidade da pobreza, e da estratificação social. O país de que essas pessoas falam com os olhos fechados e as mãos sobre os ouvidos é que não existe.