Resistência, Presente!

29.10.2018


Fot. Ricardo Stuckert, acto no Largo da Batata, São Paulo.

Bolsonaro, presidente. Resistência, presente! “Nós que ajudámos a construir uma democracia no Brasil, temos de fazer de tudo para a manter”, disse Fernando Haddad num discurso de união e de coragem. É preciso lembrar, até porque os jornalistas não o fazem, que o PT elegeu a maior bancada do Congresso Nacional na primeira volta. Somem-se os deputados do PCdoB, PDT, PROS, PSB, e PSOL. Quem perdeu deputados a rodos foi o MDB de Temer para o PSL de Bolsonaro. Bate certo: o PSL tem sido um dos apoios legislativos do ruinoso governo de direita neoliberal chefiado por Michel Temer. Houve anúncios de autoritarismo, mas haverá de certeza a tentativa de acelerar esse processo. É outra coisa pouco lembrada para que seja esquecida: o Governo Federal do Brasil já não é liderado pelo PT há mais de dois anos. Sim, resistência, presente! Não só nas instituições e nos partidos políticos, mas na rua, nas associações culturais e cívicas, nos movimentos sociais e populares, nos sindicatos. O meu abraço de força e solidariedade.

Nota para o Futuro (2)

27.10.2018

Escreve Gabriel Mithá Ribeiro no Observador, depois de um conjunto de artigos em defesa de Bolsonaro: “Portanto, é hoje muitíssimo mais fácil encontrar tentações totalitárias nos Davides Dinises do que nos milhões de apoiantes de Jair Bolsonaro.” Portanto, é fácil de deduzir o papel que este jornal pode vir a ter no futuro em Portugal pelo papel que já hoje tem. Outra nota para o futuro a juntar à de ontem.

Mithá Ribeiro argumenta ainda de modo desculpabilizador que “nunca se comprovou ser possível predizer comportamentos (o que se faz) através da verbalização de atitudes (o que se diz)”. Ou como já disse a actriz Regina Duarte de forma mais colorida: “quando conheci Bolsonaro encontrei um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, que faz brincadeiras homofóbicas da boca pra fora, um jeito masculino... que chamava o brasileiro de preguiçoso e dizia que lugar de negro é na cozinha; sem nenhuma maldade”. O discurso político é, em si, um comportamento. E este tem incitado comportamentos violentos, mostrando como o futuro do Brasil pode ser tenebroso. Não é “jeito masculino”. É jeito fascista.

Nota para o Futuro (1)

26.10.2018

Vem no jornal Público. Jaime Nogueira Pinto e Nobre Guedes (CDS) votariam em Bolsonaro. João César das Neves votaria em Haddad “porque teme pela democracia brasileira na alternativa”. Era só esta nota para o futuro.

Nacionalismo Metafísico

23.10.2018

Como qualquer pessoa convictamente religiosa, não consigo separar a política dessas convicções profundas. Não consigo separar nada, aliás, tendo em conta a dimensão existencial dessas convicções. (Bem sei que houve comunistas que perseguiram cristãos e cristãos que perseguiram comunistas. Tanto erraram os primeiros como os segundos. Tanto me distancio de uns como de outros. E não poderia pertencer a um partido anti-cristão, como é evidente.) Mas fora desse plano pessoal, no plano social, a separação entre a religião e a política é essencial numa sociedade democrática, pluralista, onde há quem tenha crenças diferentes e quem não as tenha sequer. Seja como for, a religião é também uma linguagem com raízes populares. Por essa razão, volta e meia, o discurso político recorre a ela. Por exemplo, em 2012, Jerónimo de Sousa (PCP) descreveu os lucros da GALP, nos quais o Governo PSD/CDS-PP não queria tocar enquanto o preço dos combustíveis aumentava, como um bezerro de ouro, isto é, como um objecto indignamente adorado. Atento como estou a estes usos, dei por mim a analisar o slogan da candidatura de Jair Bolsonaro que tantos cristãos brasileiros repetem: “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.” Portanto, o Brasil acima de Deus. A expressão que me ocorre para designar esta idolatria política e heresia religiosa é nacionalismo metafísico.

O Excepcionalismo Português como Venda nos Olhos

21.10.2018

Há o chamado “excepcionalismo americano”. E há o dito “excepcionalismo português”. O racismo e a xenofobia não existem. O colonialismo não deixou marcas. O machismo é invenção. O fascismo sumiu de um dia para o outro. O populismo não entra. Pois bem, para quem insiste na distracção, o caso da publicação das imagens de três detidos exibidos como troféus sem direitos é exemplar. Não é só o facto de terem sido publicadas por um grupo de polícias organizados, mas a avalanche de reacções que se lêem sobre elas: que quem defende os direitos dos presos “está a defender estes criminosos ou outros iguais a eles”, que foi “absolutamente inaceitável só porque não foi a tua mãezinha que foi espancada”, que “nenhum desses cabrões está a sangrar como era devido, é que não há um arranhão, nada”, que foi uma “pena que não os pudessem metralhar logo ali… evitava que os meus impostos ainda servissem para os alimentar”. Este autoritarismo que despreza direitos democráticos básicos está entre nós e tem raízes. Trabalhemos para que não tenha futuro.

Cerrar e Barrar

14.10.2018

Caetano Veloso insurgiu-se hoje contra um texto violentíssimo publicado no Facebook por Olavo de Carvalho, muito influente ideólogo da direita reaccionária brasileira. Entre outras coisas, Olavo escreveu isto: “Eles não estão lutando pelo poder nem para vencer uma eleição, estão lutando pela sua sobrevivência política, social, econômica e até física.” Leiam e releiam a última palavra no contexto desta frase. Vejo ainda gente de esquerda, progressista e democrata, confusa e a confundir em vez de cerrar fileiras e barrar o caminho ao fascismo. Acordem. Apoiem activamente a candidatura de Fernando Haddad e Manuela D’Ávila. Defendam a democracia e as conquistas sociais do povo brasileiro.

Haddad & Manu 13

08.10.2018

Não voto para as eleições brasileiras. Não sou cidadão brasileiro. Une-me ao Brasil, a língua, muitas e grandes amizades, e a solidariedade com as forças progressistas desse país. Muitas pessoas têm repetido que é preciso derrotar Bolsonaro e a extrema-direita, a que nega a fraternidade e a igualdade, criminaliza os pobres, menospreza as mulheres, maltrata as minorias, apela à violência, defende a tortura, desvaloriza os serviços públicos, e advoga a restrição dos processos democráticos. Para isso, como a campanha para a primeira volta demonstrou, não basta dizer não, é necessário dizer sim a um projeto político alternativo a este. A verdade é que quando o #EleNão explodiu, a subida de Haddad/Manu parou e Bolsonaro/Mourão subiu. Este é talvez o efeito de um jogo populista que é perigoso jogar: quando muita gente se posicionou contra Bolsonaro sem declarem quem apoiavam, isso colocou-o no centro das eleições e caracterizou-o ainda mais como uma “novidade”, uma “lufada de ar fresco”, que vinha resolver problemas que se acumularam. Isto tudo para dizer algo muito simples. Não sei se quem votou em Bolsonaro/Mourão vai mudar de voto e uma pequena percentagem de quem votou noutras candidaturas poderá transferir o voto para essa candidatura na segunda volta. O voto em Bolsonaro parece ser mais de protesto e menos de convicção. Mas será preciso mobilizar quem não votou na primeira volta para que votem e escolham Haddad/Manu. Será preciso fazer campanha por Haddad/Manu para ganhar a segunda volta. Será preciso dizer sim, em vez de dizer apenas não.