[U]m diálogo intercultural que transforma o confronto em encontro e a tolerância em hospedagem do outro e no outro através da assunção das culturas como habitação e morada da solidariedade, da justiça e do corpo plural da alegria.
— JOÃO MARIA ANDRÉ, Diálogo Intercultural, Utopia e Mestiçagens em Tempos de Globalização
Diálogo Intercultural
Thinking Through
[W]hat perished in the Soviet Union was Marxist only in the sense that the Inquisition was Christian.
— TERRY EAGLETON, Marxism and Literary Theory
A Via das Dúvidas
Ter sempre a certeza das dúvidas
Por via das dúvidas saber o que achar.— SÉRGIO GODINHO/GAITEIROS DE LISBOA, “Talvez que Sonhando”
Fraternising
In primitive Buddhism, in primitive Christianity, in the writings of some of the Mussulman teachers, in the early movements of the Reform, and especially in the ethical and philosophical movements of the last century and of our own times, the total abandonment of the idea of revenge, or of “due reward” — of good for good and evil for evil — is affirmed more and more vigorously. The higher conception of “no revenge for wrongs”, and of freely giving more than one expects to receive from his neighbours, is proclaimed as being the real principle of morality — a principle superior to mere equivalence, equity, or justice, and more conducive to happiness. And man is appealed to to be guided in his acts, not merely by love, which is always personal, or at the best tribal, but by the perception of his oneness with each human being. In the practice of mutual aid, which we can retrace to the earliest beginnings of evolution, we thus find the positive and undoubted origin of our ethical conceptions; and we can affirm that in the ethical progress of man, mutual support — not mutual struggle — has had the leading part. In its wide extension, even at the present time, we also see the best guarantee of a still loftier evolution of our race.
— PETER KROPOTKIN, Mutual Aid
A Radicalidade do Amor e da Política
— Você publicou um livro sobre o amor, que é de uma sabedoria comovedora. Para um filósofo comprometido com a ação política e cujo pensamento integra as matemáticas, a aparição do tema do amor é pouco comum.
O amor é um tema essencial, uma experiência total. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. O amor é um gesto muito forte porque significa que é preciso aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação. No amor, o fundamental está em que nos aproximamos do outro com a condição de aceita-lo em minha existência de forma completa, inteira. Isso é o que diferencia o amor do interesse sexual. Este se fixa sobre o que os psicanalistas chamaram de “objetos parciais”, ou seja, eu extraio do outro alguns emblemas fetiches que me interessam e que suscitam minha excitação desejante. Não nego a sexualidade, pelo contrário. Ela é um componente do amor. Mas o amor não é isso. O amor é quando estou em estado de amar, de estar satisfeito e de sofrer e de esperar tudo o que vem do outro: a maneira como viaja, sua ausência, sua chegada, sua presença, o calor de seu corpo, minhas conversas com ele, os gostos compartilhados. Pouco a pouco, a totalidade do que o outro é torna-se um componente de minha própria existência. Isso é muito mais radical que a vaga ideia de preocupar-me com o outro. É o outro com a totalidade infinita que representa e com o qual me relaciono em um movimento subjetivo extraordinariamente profundo.
— Em que sentido o amor está ameaçado pelos valores contemporâneos?
Está ameaçado porque o amor é gratuito e, desde o ponto de vista do materialismo democrático, injustificado. Por que deveria me expor ao sofrimento da aceitação da totalidade do outro? O melhor seria extrair dele o que melhor corresponde aos meus interesses imediatos e aos meus gostos e descartar o resto. O amor está ameaçado hoje porque é distribuído em fatias. Observemos como se organizam as relações nestes portais de internet onde as pessoas entram em contato: o outro já vem fatiado em fatias, um pouco como a vaca nos açougues. Seus gostos, seus interesses, a cor dos olhos, o corte dos cabelos, se é grande ou pequeno, loiro ou moreno. Vamos ter uns 40 critérios e, ao final, vamos nos dizer: vou comprar este. É exatamente o contrário do amor. O amor é justamente quando, em certo sentido, não tenho a menor ideia do que estou comprando.
— E frente a essa modalidade competitiva das relações, você proclama que o amor deve ser reinventado para nos defendermos, que o amor deve reafirmar seu valor de ruptura e de loucura.
O amor deve reafirmar o fato de que está em ruptura com o conjunto das leis ordinárias do mundo contemporâneo. O amor deve ser reinventado como valor universal, como relação em direção da alteridade, daquilo que não sou eu e onde a generosidade é obrigatória. Se não aceito a generosidade, tampouco aceito o amor. Há uma generosidade amorosa que é inevitável. Sou obrigado a ir na direção do outro para que a aceitação do outro em sua totalidade possa funcionar. Essa é uma excelente escola para romper com o mundo tal como é. Minha ideia sobre a reinvenção do amor quer dizer o seguinte: uma vez que o amor se refere a essa parte da humanidade que não está entregue à competição, à selvageria; uma vez que, em sua intimidade mais poderosa, o amor exige uma espécie de confiança absoluta no outro; uma vez que vamos aceitar que este outro esteja totalmente presente em nossa própria vida, que nossa vida esteja ligada de maneira interna a esse outro, pois bem, já que tudo descrito acima é possível isso prova que não é verdade que a competitividade, o ódio, a violência, a rivalidade e a separação sejam a lei do mundo.
— A política não está muito afastada de tudo isso. Para você, há uma dimensão do amor na ação política?
Sim, inclusive pode resultar perigoso. Se buscamos uma analogia política do amor eu diria que, assim como no amor onde a relação com uma pessoa tem que constituir sua totalidade existencial como um componente de minha própria existência, na política autêntica é preciso que haja uma representação inteira da humanidade. Na política verdadeira, que também é um componente da vida verdadeira, há necessariamente essa preocupação, essa convicção segundo a qual estou ali enquanto representante e agente de toda a humanidade. Do mesmo modo que ocorre no amor, onde minha preocupação, minha proposta e minha atividade estão ligadas à existência do outro em sua totalidade.
— ALAIN BADIOU, entrevistado por Eduardo Febbro, “O Comunismo é a Ideia da Emancipação de Toda Humanidade”
O Conteúdo Histórico das Ideias
Penso que o conteúdo histórico das ideias sempre pode ser declarado desastroso. Os democratas nos falam da democracia, mas se olhamos de perto a história das democracias, ela está cheia de desastres. Para tomar o exemplo mais elementar, se tomamos a Primeira Guerra Mundial, ela foi lançada por democratas, democratas alemães, ingleses e franceses. Foi um massacre inimaginável, o qual já se demonstrou esteve ligado a apetites financeiros nas colónias africanas, apetites que não diziam respeito áqueles que seriam massacrados mais tarde. Houve milhões de mortos e de sacrificados em condições espantosas e, aceite-se ou não, isso é parte da história das democracias. Se interrogamos o conjunto das experiências históricas veremos que todo o mundo tem sangue até as orelhas.
No que se refere à palavra “comunista” em si, da mesma maneira que ocorre com a palavra “democracia”, sempre se pode argumentar que ambas tem sangue até as orelhas. Mas, por acaso, é preciso sempre inventar outra palavra? Tomemos, por exemplo, o “cristianismo”. O cristianismo é São Francisco de Assis, a santidade verdadeira, o advento da ideia de uma verdadeira generosidade para com os pobres, a caridade, etc., etc. Mas, do outro lado, também é a inquisição, o terror, a tortura e o suplício. Por acaso vamos dizer que é um crime alguém se chamar de cristão? Ninguém diz isso. Eu defendo uma espécie de absolvição dos vocábulos.
— ALAIN BADIOU, entrevista de Eduardo Febbro, “O Comunismo é a Ideia da Emancipação de Toda Humanidade”
Thinking About Christianity and Marxism Philosophically
For what Marx and the Christian traditions of negative theology have in common is their rejection of a describable God; all deny essentialism whether in theistic or atheistic forms since for none is there any common essence of the divine, the human or the natural which can be appropriated in language, social order or personal experience. All, as it were, demand that we should love in divine darkness, in a world deprived of any ultimate meaning which is at our disposal, for either, as in Marx, there is no such transcendent meaning, or as in the mystic, there is, but it is not at our disposal. And if at this point the charge is repeated that it is simply perverse to ignore the difference between the theist apophaticist and the atheist Marx; since manifestly what for the one is mystery is for the other mystification; then it would be possible to say this much, speaking for myself: I do not, of course, deny the importance of this distinction between the Marxist and the Christian, howsoever apophatic. But to produce that distinction requires a doctrine of God which is post-Marxist, a theology which has been unnerved by the closeness of the engagement in which it must associate with Marx’s atheism and has thereby problematised its own very possibility as a discourse.
— DENYS TURNER, “Marxism, Liberation Theology and the Way of Negation”
Impatience
All human errors are impatience, a premature breaking off of methodical procedure, an apparent fencing-in of what is apparently at issue.
— FRANZ KAFKA, Aphorisms
The Beauty of Ignorance
There is a certain poetic value, and that a genuine one, in this sense of having missed the full meaning of things. There is beauty, not only in wisdom, but in this dazed and dramatic ignorance.
— G. K. CHESTERTON, Robert Browning
Reconhecemo-nos Ainda
Estas palavras de Luís Miguel Cintra abrem o livro Ruy Belo: Coisas de Silêncio (Lisboa: Assírio & Alvim, 2000) com fotografias de Duarte Belo que “registam” a ausência do pai, o poeta Ruy Belo:
Reconhecemo-nos ainda. Gostamos do mar e da terra a céu aberto. Árvores, searas, pedras, montes. Da praia. Dos campos. Das igrejas. Das aldeias e das cidades com passado e com ruas muito grandes. Dos textos antigos. De cartas e postais. E dos livros. E do povo. Das procissões. Dos cafés. Do cemitério. De ir ao cinema. Ler o jornal. Mozart e Bach. Não sabemos pôr gravata. Ainda temos camisas aos quadrados e vestimos camisola. Não gostamos da manha e da astúcia. Somos pobres. Temos o sol e só o que nos toca o coração. Alguns amigos mais. E carregamos nos ombros o amor da vida toda e uma enorme saudade de Deus. Somos católicos. Acreditamos na alegria e na pureza. Sabemos que o homem é Deus feito carne.
Reconhecemo-nos. Somos assim generosos, é verdade. Sem esforço. E não vamos mudar. Não sei se somos um grupo nem seremos com certeza uma geração, somos uma maneira de ser. E na poesia do Ruy nos encontramos.
Sou e quero ser irmão ou herdeiro dessa gente. Como o Duarte, legitimamente. E reconheço nas fotografias do Duarte, como na poesia do Ruy, a passagem das nossas vidas, os lugares, as nossas casas, os objectos a que nos afeiçoámos ou demos sentido, a memória dos nossos corpos, dos nossos encontros, dos nossos grandes amores ou da nossa paixão. A minha casa. Reconheço também o meu pai. Mas reconheço sobretudo o espaço. Ou o tempo. “O Tempo Sim o Tempo Porventura”. Estas fotografias, o seu pudor, são o retrato de uma ausência. São fotografias da morte. Violentas. O que resta de um cidadão, a mudança das idades, as coisas que tinha, os lugares onde esteve ou onde estava, a roupa que vestiu, o que ficou do que escreveu. São o retrato do tempo que foge, imenso. Mas mais ainda, tanto, o retrato do que falta. Falta a vida neste vazio, neste espaço que vai da terra ao céu. E esse espaço, esse vazio, é exactamente o espaço das palavras do Ruy. O espaço do que vive. Perante a morte, constantemente, nesse único momento que se confunde com a solidão mas abraça o mundo inteiro e que nos dá a nós a dimensão da vida. Tão imensa diante do tempo que talvez nem na paixão possa encontrar a sua desejada desmedida. Tão grande que convoca Deus. E já não sabemos de que ausência falamos.
