Profissional da Caridadezinha

12.09.2014

“Profissionais da pobreza” rima com “empreendedorismo social” — um sector em expansão para o qual este governo tanto tem contribuído. Fornece-lhe matéria-prima quando empobrece os trabalhadores, reformados, e pensionistas, e segue uma política económica e laboral que fomenta o desemprego. Apoia-o com quantias crescentes vindas de fundos do Estado. Reduz os serviços públicos para abrir espaço para o lucro privado nesta área de actividade. Entretanto, enquanto Isabel Jonet tenta passar a ideia perversa de que a culpa da pobreza é dos pobres espoliados, que fazem profissão de uma condição que lhes é imposta, a estrutura de exploração capitalista que gera a pobreza fica por denunciar e este estado de coisas fica por transformar. Só quando Jonet deixar de ser profissional da caridadezinha teremos um sinal de que este presente foi enterrado no passado.

O Amor Combate

01.09.2014

Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.

JOAQUIM PESSOA, “Amor Combate”

De Pernas para o Ar

10.09.2014

O PS não está disponível para governar à esquerda. Não é novidade, mas vale a pena reiterá-lo. Vimos demasiadas vezes virar esta evidência (que não é de hoje nem de ontem) de pernas para o ar.

Nunca Hoje

01.09.2014

Quem ainda está vivo nunca diga: nunca.
O que é seguro não é seguro.
As coisas não continuarão a ser como são.
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados.
Quem pois ousa dizer: nunca?
De quem depende que a opressão prossiga? De nós.
De quem depende que ela acabe? Também de nós.
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aí que o retenha?
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã.
E nunca será: ainda hoje.

BERTOLT BRECHT, “Elogio da Dialéctica”