Um Crime Sem Nome

04.12.2018

Critica-se o facto de a China Three Gorges Corporation controlar a EDP. Sem dúvida, o sector da energia, estratégico nos campos económico e social, deve ter controlo público em Portugal. Mas quem a vendeu? O foco na RPC é uma forma de desresponsabilizar politicamente os governos do PS, PSD, e CDS que levaram a cabo a segmentação e privatização da EDP entre 1997 e 2011. Um crime sem nome, entre muitos outros.

Uma Lição Inesquecível

01.12.2018

O meu episódio favorito sobre o PCP e a religião passou-se na recta final da implantação de uma Festa do Avante, no dia de abertura, e envolveu um camarada muçulmano. Entre o meio-dia e o pôr do sol, eu e a Filipa (que pode confirmar estes acontecimentos) fomos buscar o carro a um dos parques de estacionamento. Quando nos aproximámos da saída, reparámos que o camarada encarregado de abrir e fechar o portão estava a fazer a terceira oração do dia (“Alá-sari”). Esperámos. Quando terminou, veio ter connosco para agradecer a compreensão. “Ora essa”, dissemos nós. O que há de extraordinário neste episódio inesquecível? Não é apenas a constatação da diversidade que convive no interior do PCP, que se traduz numa variedade de contributos para um projecto comum. É o facto de este homem religioso, de uma religião minoritária em Portugal e no PCP, ter demonstrado que as suas convicções religiosas eram respeitadas ao ponto de se sentir confortável para fazer as suas orações diárias (“Salá”) no contexto de actividades partidárias. Continua a ser uma lição para mim que tenho o dever de partilhar. Desmente melhor do que qualquer conversa abstracta a ideia feita — isto é, a ideia falsa — segundo a qual não há lugar para pessoas convictamente religiosas no PCP.

Questões Críticas

29.11.2018

O que sobra da política se recusar a importância das questões estruturais numa comunidade? O que resta da democracia se não se fundar no complexo diálogo entre multiplicidades e diferenças? Questões críticas, hoje, em Portugal.

Seis por Cento

28.11.2018

Costumo evitar entrar em polémicas, sobretudo quando o espaço público está contaminado à partida por uma distorção de votações de propostas concretas e posições assumidas, que nos diz mais sobre os preconceitos de quem comenta do que sobre os parâmetros da questão em discussão. O que se votou na Assembleia da República não foi a descida do IVA das corridas de touros para 6%, foi o alargamento da redução do IVA a todos os espectáculos como aconteceu até 2012, quando o Governo PSD/CDS-PP os aumentou para a taxa intermédia. A proposta para o OE2019 excluía da redução alguns espectáculos e recintos (incluindo sessões de cinema ao ar livre) sem suporte na lei em vigor, em particular no Decreto-Lei n.º 23/2014 (que define o regime de funcionamento dos espetáculos de natureza artística e de instalação e fiscalização dos recintos fixos destinados à sua realização).

Não aprecio touradas. É uma posição pessoal que penso que pode ser transformada em posição política com o devido respeito democrático. Sei que as touradas têm expressão popular em muitas regiões do país. Sou, portanto, contra a sua proibição ou discriminação a nível central. A história recente mostra-nos a violência social gerada por esse tipo de decisão. Sou pelo avanço da discussão cívica sobre esta questão e pela tomada de posição local, como aliás tem vindo a acontecer. Por exemplo, a exclusão das garraiadas defendida pelo presidente da União de Freguesias de Alverca do Ribatejo e Sobralinho, Carlos Gonçalves da CDU (PCP-PEV), há poucos meses, apoiada por todas as forças políticas da junta. É apenas um exemplo.

O PCP, os Católicos e a Igreja (Lamego)

27.11.2018

Clara Opção

22.11.2018


Fot. Lusa.

O Governo do PS não intervém em favor dos trabalhadores para combater o seu tratamento como descartáveis há mais de 20 anos, compondo uma larga maioria sem a qual o Porto de Setúbal não funciona, contratada ao dia, nalguns casos com mais de 40 turnos por mês, permanentemente precários mas com contas para pagar todos os meses. Mas intervém com o braço musculado da polícia em favor dos patrões. Clara opção. A de quem não aceita a exploração laboral e a injustiça social deve ser igualmente clara.

O PCP e os Cristãos (Figueira da Foz)

06.11.2018

Resistência, Presente!

29.10.2018


Fot. Ricardo Stuckert, acto no Largo da Batata, São Paulo.

Bolsonaro, presidente. Resistência, presente! “Nós que ajudámos a construir uma democracia no Brasil, temos de fazer de tudo para a manter”, disse Fernando Haddad num discurso de união e de coragem. É preciso lembrar, até porque os jornalistas não o fazem, que o PT elegeu a maior bancada do Congresso Nacional na primeira volta. Somem-se os deputados do PCdoB, PDT, PROS, PSB, e PSOL. Quem perdeu deputados a rodos foi o MDB de Temer para o PSL de Bolsonaro. Bate certo: o PSL tem sido um dos apoios legislativos do ruinoso governo de direita neoliberal chefiado por Michel Temer. Houve anúncios de autoritarismo, mas haverá de certeza a tentativa de acelerar esse processo. É outra coisa pouco lembrada para que seja esquecida: o Governo Federal do Brasil já não é liderado pelo PT há mais de dois anos. Sim, resistência, presente! Não só nas instituições e nos partidos políticos, mas na rua, nas associações culturais e cívicas, nos movimentos sociais e populares, nos sindicatos. O meu abraço de força e solidariedade.

Nota para o Futuro (2)

27.10.2018

Escreve Gabriel Mithá Ribeiro no Observador, depois de um conjunto de artigos em defesa de Bolsonaro: “Portanto, é hoje muitíssimo mais fácil encontrar tentações totalitárias nos Davides Dinises do que nos milhões de apoiantes de Jair Bolsonaro.” Portanto, é fácil de deduzir o papel que este jornal pode vir a ter no futuro em Portugal pelo papel que já hoje tem. Outra nota para o futuro a juntar à de ontem.

Mithá Ribeiro argumenta ainda de modo desculpabilizador que “nunca se comprovou ser possível predizer comportamentos (o que se faz) através da verbalização de atitudes (o que se diz)”. Ou como já disse a actriz Regina Duarte de forma mais colorida: “quando conheci Bolsonaro encontrei um cara doce, um homem dos anos 1950, como meu pai, que faz brincadeiras homofóbicas da boca pra fora, um jeito masculino... que chamava o brasileiro de preguiçoso e dizia que lugar de negro é na cozinha; sem nenhuma maldade”. O discurso político é, em si, um comportamento. E este tem incitado comportamentos violentos, mostrando como o futuro do Brasil pode ser tenebroso. Não é “jeito masculino”. É jeito fascista.

Nota para o Futuro (1)

26.10.2018

Vem no jornal Público. Jaime Nogueira Pinto e Nobre Guedes (CDS) votariam em Bolsonaro. João César das Neves votaria em Haddad “porque teme pela democracia brasileira na alternativa”. Era só esta nota para o futuro.