Um Intenso Ódio de Classe

07.04.2018

O Partido dos Trabalhadores (PT) cometeu erros políticos graves, sem que eles apaguem os seus muitos acertos. Mas como escreveu Frei Betto, certeiro, acatou “uma concepção burguesa de Estado, como se ele não pudesse ser uma ferramenta em mãos das forças populares, e merecesse sempre ser aparelhado pela elite”. A instrumentalização política das instituições de poder, a que se assiste desde o golpe, não pode ser desligada desses erros. Seja como for, vale a pena observar com atenção o ódio que sectores da sociedade brasileira (e não só) têm a Lula da Silva. É um intenso ódio de classe. E é isso que há-de ser derrotado com a nossa solidariedade. [Fot. Francisco Proner/Reuters.]

Apelo pela Cultura

06.04.2018

Gente aos montes em Coimbra. Defendem a importância fundamental de um serviço público de cultura para uma democracia plena. A dignidade de quem trabalha no sector. O acesso generalizado aos bens culturais. A luta continua!

O Estranho Silêncio

02.04.2018

Habituámo-nos a ler e a ouvir comentários vindos da direita conservadora e liberal de que as greves no sector dos transportes não existem porque as trabalhadoras e os trabalhadores são obrigados a defender, como força organizada, a sua dignidade face às condições laborais a que estão sujeitos. Não. Existem porque, enfim, as empresas são públicas. Se fossem privadas, tal não aconteceria. (Fica sempre a ameaça no ar de que o direito à greve, que por vezes é a única via de contestação, custando a perda de rendimentos a quem é assalariado, é uma espécie de “regalia”.) Por isso, estranho o silêncio dessas pessoas sobre a greve na Ryanair, uma empresa privada irlandesa. Uma greve que tem escancarado a intimidação a que estão sujeitas as trabalhadoras e os trabalhadores da empresa em greve em Portugal e aquelas que se têm solidarizado com esta luta noutros países. Talvez seja isso: é uma situação em que se vê a face monstruosa do capitalismo que alguma opinião prefere ignorar ou ocultar.

Trabalhadores Precários do Ensino Superior Protestam Contra o Bloqueio do PREVPAP

27.03.2018

Passou por aqui, mesmo agora, um britânico para nos dizer que lá é igual: a ideologia neoliberal a triturar a vida e a dignidade das pessoas. Internacionalismo na prática. Vídeos do protesto aqui.

Anti-Anti-Communism

25.03.2018

This article by Kristen R Ghodsee (Professor of Russian and East European Studies, University of Pennsylvania) and Scott Sehon (Professor of Philosophy, Bowdoin College) on the merits of taking an anti-anti Communism stance is very thoughtful.

I was recently in Slovakia and, if I had lived in socialist Czechoslovakia, I would’ve been a clandestine Christian (and I met people who lived like this), because religious orders were prohibited and I belong to the Dominican Order. This infringed on the fundamental right of freedom of religion. It was quite interesting to listen to people compare the past and the present and tell their different (and sometimes differing) stories. I learned a lot.

As for my comrades, we do well to study socialist experiences openly and not defensively, examining their deviations and crimes, instead of leaving this task to others who are politically motivated to spread the idea that there are no transformative alternatives to the class warfare of capitalism, making use of racism, xenophobia, misogyny, homophobia, and Islamophobia. The Dominican Order is often associated with the Inquisition, even though some notable Dominicans were tried by inquisitional tribunals (e.g., Meister Eckhart). Dominicans are among the most dedicated researchers on this topic today. It makes sense. And how many socialists/communists were tried, convicted or summary killed in socialist countries (e.g., in the Stalinist Great Purge)? I know some are still nostalgic about the Soviet Union and the Eastern bloc—as if they didn’t collapse because they were collapsing internally, despite the fact that this event had destructive consequences, not just in these countries, but also in their capitalist neighbours. That’s a blind and even ahistorical attitute. We need to look to the future and do it with a progressive mind, making sure that socialism never surrenders its commitment to democracy and freedom.

An excerpt:

Conservative and nationalist political leaders in the US and across Europe already incite fear with tales of the twin monsters of Islamic fundamentalism and illegal immigration. But not everyone believes that immigration is a terrible threat, and most Right-wing conservatives don’t think that Western countries are at risk of becoming theocratic states under Sharia law. Communism, on the other hand, provides the perfect new (old) enemy. If your main policy agenda is shoring up free-market capitalism, protecting the wealth of the superrich and dismantling what little is left of social safety nets, then it is useful to paint those who envision more redistributive politics as wild-eyed Marxists bent on the destruction of Western civilisation.

What better time to resurrect the spectre of communism? As youth across the world become increasingly disenchanted with the savage inequalities of capitalism, defenders of the status quo will stop at nothing to convince younger voters about the evils of collectivist ideas. They will rewrite history textbooks, build memorials, and declare days of commemoration for the victims of communism—all to ensure that calls for social justice or redistribution are forever equated with forced labour camps and famine.

Responsible and rational citizens need to be critical of simplistic historical narratives that rely on the pitchfork effect to demonise anyone on the Left. We should all embrace Geertz’s idea of an anti-anti-communism in hopes that critical engagement with the lessons of the 20th century might help us to find a new path that navigates between, or rises above, the many crimes of both communism and capitalism.

A Admirável América

25.03.2018

A América, a admirável América que eu conheço e que tantas vezes o simplismo tenta apagar, inundou Washington DC e outras cidades numa marcha pelas vidas. Foram muitos milhares contra a violência provocada pelas armas de fogo e pelo direito à segurança. [Fot. Salwan Georges.]

Brasil e Portugal em Luta

17.03.2018

Muitas e muitos colegas no Brasil, que conheço e com quem trabalho, esperam de nós aquela solidariedade que alimenta o alento. E é neste preciso momento que a Guiomar Ramos (UFRJ) me mostrou um documentário que está a finalizar sobre o seu pai, Vítor Ramos. Foi comovente e inspirador ver e ouvir “Por Parte de Pai”, pesquisa simultaneamente pessoal e histórica que põe em diálogo discursos e vozes. Vítor nasceu em Portugal em 1920 e envolveu-se desde cedo na luta antifascista, tendo militado no MUD Juvenil e no Partido Comunista Português. Esteve na clandestinidade nos anos 40. Foi perseguido pela PIDE. Passou por Paris, doutorando-se em Literatura Francesa na Sorbonne e aí conhecendo uma jovem brasileira, Dulce Helena, com quem casou em 1955. Ensinou literatura francesa na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras em Assis, na Universidade de São Paulo, e na Universidade da Califórnia, Davis. Em São Paulo, vigiado pelo DOPS, fundou o jornal Portugal Democrático que se tornou na grande bandeira de luta e resistência da diáspora portuguesa, denunciando com veemência a opressão salazarista. O dia 25 de Abril de 1974 foi também o dia do seu 54.º e último aniversário. A revolução foi talvez o melhor presente que podia ter tido. Ou seja, entre outras coisas, o filme da Guiomar demonstra a ligação de resistência política à ditadura e de luta pela democracia entre o Brasil e Portugal no século XX. É importante reavivarmos essa memória. Mas é igualmente importante assumirmos as responsabilidades de luta empenhada que o presente exige a partir dessa memória.

Um Amanhã de Dívida

16.03.2018

Linhas de crédito para estudantes do ensino superior e estruturas culturais. Eis a solução do Governo. Em vez de assegurar a democratização no acesso aos politécnicos e universidades. Em vez de apoiar a concretização do direito à fruição e criação cultural. Chama-se a isto hipotecar, comprometer, o futuro. Perante um presente de défice, o Governo propõe um amanhã de dívida.

O Que Importa

12.03.2018

Ao comprar o bilhete de comboio para Coimbra, o funcionário da CP desdobra-se em justificações sobre a greve dos trabalhadores da IP Infraestruturas de Portugal e os serviços mínimos. Disse-lhe que tinham todo o meu apoio. Perguntou-me de onde vinha, certamente por causa da mala de viagem. Respondi-lhe que vim da Eslováquia. Comentou que eu devia querer chegar a casa. Concluí dizendo-lhe que sim, claro, mas que não me importava de chegar um pouco mais tarde—e me importava muito se faltasse à solidariedade com quem se bate por condições laborais mais dignas e justiça salarial.

Temeridade

20.02.2018

Escreveu-me um colega brasileiro da PUC-Rio com quem tenho trabalhado. O Brasil regrediu em diversos sectores, o conflito entre classes sociais está exposto, a militarização do espaço público está formalmente em marcha. Como ele escreve, é preciso seguir com “temeridade e uma certa constrangida obstinação”. É necessário defender a democracia. Um abraço solidário nessa luta.