Da Liberalidade de uma Iniciativa

13.10.2019

Ainda é cedo, mas já se percebeu que a Iniciativa Liberal age como um espertalhão. Quer ter iniciativa antes de estudar e conhecer. Quer ser liberal mesmo em relação às regras de funcionamento da nossa democracia. O deputado eleito por Lisboa, João Cotrim de Figueiredo, veio afirmar, com dramático estrondo, que vai votar contra o programa de governo do PS. Acontece que o programa de governo não vai a votos na Assembleia da República. O que pode ser votada é uma moção de rejeição a esse programa — como aconteceu em 2015, em relação ao que tinha sido apresentado por Pedro Passos Coelho. Duas lições de ouro que podem causar mossa ideológica: a primeira é que a iniciativa, por si só, não garante o acerto; a segunda é que liberdade não se exerce no vazio e, por isso, tem sempre limites.

O Futuro de que Precisamos como Horizonte

13.10.2019

Algo que sempre me espantou: a ideia da rigidez e imobilidade do Partido Comunista Português, que já viveu e passou por muita coisa nos seus quase 100 anos de existência. Sobrevive às convulsões da Primeira República (1910-1926). Passa à clandestinidade no período da ditadura fascista. Integra várias coligações eleitorais (FEPU, APU, CDU) depois da Revolução de Abril de 1974. Ajuda à integração de outras forças nessas coligações (a UDP, co-fundadora do BE, em 1991). Assume responsabilidades autárquicas mesmo onde não ganha as eleições. Trabalha em conjunto de forma construtiva. Encontra soluções políticas para impasses institucionais. Etc. Tudo feito com criatividade e flexibilidade, tendo em conta as exigências e as condições de cada momento. E, no entanto, nada disso permite apagar essa imagem. Porquê? Por causa das ideias feitas, é certo. Mas também porque o PCP tem um projecto, um ideal, um horizonte, que não trai nem abandona, cuja necessidade a realidade não desmente mas confirma todos os dias. O que me parece rígido e imóvel é a relutância na adaptação a uma situação diferente, a falta de inventividade na resposta, a insistência numa solução encontrada para outro contexto, o fechamento no que já foi, a dificuldade em ler um presente cheio de potencialidades e perigos. Um PS de mãos livres seria aquele que tivesse maioria absoluta. Esta legislatura vai ser exigente para esse partido, porque serão as opções e objectivos do seu governo, a convergência ou divergência com as forças de esquerda, que determinarão a estabilidade governativa. Com ou sem papel, o PCP lá estará para participar na construção do futuro de que precisamos.

Isolar

11.10.2019

Vejo muita gente, mesmo muita, cair em manobras de petições, divulgando, comentando, reagindo, propagando, respondendo com contra-petições. Ou seja, ajudando a colocar no centro da actividade política e do debate político quem lá não deve nem pode estar se queremos preservar a democracia que temos. Parece-me que, em vez disso, precisamos de uma estratégia de isolamento dessas forças reaccionárias e anti-democráticas.

Discriminação Etária

03.10.2019

Fala-se tanto de discriminações e preconceitos vários para os combater, e ainda bem, mas a discriminação etária passa muitas vezes em claro no nosso país. O modo como é olhado pela comunicação social Jerónimo de Sousa, que com 72 anos faz mais e dá mais de si do que muita gente mais nova, é um perfeito exemplo disso. Baseia-se na ideia de que os “velhos” são lentos, fracos, dependentes, senis, inúteis. Pois bem, se há coisa que sempre admirei na CDU e no PCP é o contributo que cada pessoa pela sua identidade, pelo seu percurso, pela sua actividade, pelo seu conhecimento, pode dar a esta força democrática e de unidade. Não olhamos para os muitos jovens que nela participam como imaturos, desinteressados, irresponsáveis. Não pomos de lado os mais velhos como se já nada tivessem a dizer ou a fazer. Pelo contrário. Cada pessoa contribui como sabe e pode, não só nas campanhas mas sobretudo na vida política quotidiana. E esse contributo é respeitado e integrado, porque cada um deles ajuda a consolidar posições colectivas, partilhadas, fundadas em aspirações legítimas e na experiência acumulada.

Repúdio, Travamento e Abandono da Criação do “Museu Salazar” em Santa Comba Dão

18.09.2019

Há uma nova petição sobre um projecto museulógico em torno do espólio de Salazar, da qual sou um dos primeiros subscritores. Juntem-se, assinem, divulguem, apoiem aqui.

A Esquerda de Israel

18.09.2019

A informação forma consciências, molda visões do mundo. Pensemos em Israel. A realidade política e social desse país é mais complexa do que se costuma dar a entender. Ouve-se falar sobre as eleições para os 120 deputados do Knesset (Parlamento) e a ideia que passa é a de que só existe o centro (Kaḥol Lavan, com 33 deputados) e a direita (HaLikud, o partido de Benjamin Netanyahu, com 32 deputados). Não se fala da esquerda (HaReshima HaMeshutefet, com 12 deputados). Esta terceira força em termos de votação é uma coligação que advoga a solução dos dois estados (Israel e Palestina) e defende os árabes israelitas. Dentro desta coligação que subiu neste acto eleitoral, o Maki, Partido Comunista de Israel, tem um papel fundamental, sendo o partido com mais eleitos (3 deputados).

Vacas e Modos de Produção

18.09.2019

A resposta ao Reitor da Universidade de Coimbra (UC) veio de Vila Pouca de Aguiar. As reacções do criadores não se fizeram esperar. E não é só o gado maronês, mas todo o gado autóctone, quando é criado nas condições do seu habitat natural. O problema não são as vacas, mas o modo de produção. Que o combate às alterações climáticas não nos torne irracionais, inimigos da inteligência e do bom senso. Produzir e consumir localmente é uma medida fundamental na acção pelo clima e está provado que é mais benéfica para a saúde das populações locais, que fazem parte do mesmo ecossistema. Agora, imagine-se que a Reitoria da UC decidia e anunciava que a instituição passaria a privilegiar a compra de ingredientes alimentares locais, por convicção ecológica e para contribuir para o desenvolvimento da região. Talvez não gerasse parangonas, não é? Já agora, vale a pena espreitar os compromissos críticos e sensatos do Partido Ecologista "Os Verdes" para estas eleições.

O Nosso ADN

14.09.2019

Lembro-me bem das palavras, ouvidas de passagem na Festa do Avante deste ano: “É impressionante que se consiga organizar isto. Mas o que mais me impressiona é que esta gente não se deixa ir abaixo, não desiste de lutar pelo que é justo, não fica a lamber as feridas. Tem uma força incrível. Mesmo no pessoal mais jovem se nota. Parece que passa de geração em geração. Acho que nenhum outro partido aguentava quase meio século de clandestinidade em ditadura. As pessoas desistiam, abandonavam a coisa para tratar da vidinha.” Claramente, pela maneira como falava, o homem não era militante do Partido Comunista Português. Não sei que contacto tem com comunistas portugueses ou se esteve muito tempo a pensar e foi ali, no meio daquela festa imensa, que conseguiu finalmente dizer o que eu ouvi. Não sei quem era. Sei que sabe mais sobre nós e o nosso ADN do que os banais comentadores políticos que vamos ouvindo.

Avivar a História

12.09.2019


48.

Estranho esta ideia de que quem está contra qualquer projecto museológico em torno do espólio de António de Oliveira Salazar, para a partir daí construir um discurso sobre o Estado Novo, quer apagar a história. Vivemos num país onde a defesa da memória histórica do que foi a repressão fascista e da luta pela liberdade contra a ditadura quase não ocupam o espaço público nem os contextos educativos. Basta espreitar os livros e currículos escolares. O desconhecimento do nosso passado recente é cultivado em muitas escolas. É isso que vale a pena mudar, não apenas por respeito pelo passado, mas em nome do futuro. Tenho a experiência de mostrar um filme como 48 (2009) da Susana de Sousa Dias na universidade e registar a surpresa da maioria dos estudantes sobre a brutal violência política da PIDE em Portugal. Adelino Silva, Álvaro Pato, Conceição Matos, Domingos Abrantes, Manuel Martins Pedro, Matias Mboa: nunca tinham ouvido falar daqueles nomes. O de Salazar vai sendo nomeado, muitas vezes de forma amena, benévola, tolerável, mas ainda sem espólio. Hoje, João Miguel Tavares escreve no Público que Salazar criou uma “ditadura de baixa intensidade” — um insulto vil para quem foi perseguido, encarcerado, torturado, e morto ao lutar pela democracia. Hoje, o PNR e José Pinto-Coelho clamam “honra a Salazar”. Hoje, há uma onda bem real de extrema-direita que cresce na Europa. É neste momento histórico que estamos. Saibam os democratas estar à altura do que lhes é exigido.

Liberdade, Democracia, e o Dever da Memória

11.09.2019

“Condena firmemente a criação de um ‘museu’ dedicado à memória do ditador Oliveira Salazar em Santa Comba Dão, independentemente da sua designação, considerando essa criação uma afronta à democracia, aos valores democráticos consagrados na Constituição da República e uma ofensa à memória das vítimas da ditadura.”

O voto foi apresentado pelo Partido Comunista Português na Assembleia da República. Foi aprovado com votos a favor do BE, PCP, PEV, e PS, e a abstenção do CDS e PSD. O PAN não participou na votação.

A liberdade custou a conquistar em Portugal. É um custo que a democracia deve saber respeitar, caso contrário faz ruir as suas fundações. E é uma liberdade que, por essa razão, tem o dever da memória, não do ditador, mas das vítimas da ditadura. Escrevo isto no dia dos 77 anos da morte de Bento Gonçalves, segundo Secretário-Geral do PCP, no campo de concentração do Tarrafal, ilha de Santiago, Cabo Verde.