O Rosto Desfigurado

22.01.2020

O rosto de uma mulher negra desfigurado por hematomas e feridas é a imagem da humanidade negada. É intolerável. E é sempre assim quando a violência extravasa o trabalho policial, diferenciando entre cidadãos, negando a quem é visto como “outro” o respeito e os direitos que reconhece à maioria. Eis mais um sinal de que a democracia conquistada continua em perigo e de que é urgente construir a democracia que o nosso tempo exige. A brutalidade policial não pode passar impune, porque numa sociedade democrática nenhum cidadão se deve sentir inseguro face às forças e serviços de segurança. Entretanto, o problema, como escreveu o indiano Vijay Prashad, é também este: “Somos levados a acreditar que o racismo é um comportamento prejudicial de um grupo contra outro, em vez da coagulação da injustiça socio-económica contra grupos.”

XIV Congresso da CGTP-IN

21.01.2020

4.ª Conferência Nacional do Ensino Superior e da Investigação

11.01.2020

Pela Paz na Índia Multi-religiosa

22.12.2019

É um disparate pensar que há uma incompatibilidade de raiz entre comunistas e liberdade religiosa. Mas para quem acha isso, vale a pena seguir o que se tem passado recentemente na Índia. O Governo nacionalista hindu de Narendra Modi fez passar uma lei que, pela primeira vez desde a independência em 1947, usa a religião como critério de cidadania. O resultado foi uma explosão de violência nas ruas, com 23 mortos até agora. O estado de Kerala, governado por uma coligação liderada pelo Partido Comunista da Índia (Marxista) como já tinha acontecido no passado, contestou a lei e argumentou que a natureza secular da República da Índia não permite esta discriminação e é o garante da liberdade da maioria e minorias religiosas. O comunista Pinarayi Vijayan, chefe do executivo de Kerala, recusou-se a implementar a nova lei. Vijayan defende que Kerala “não pode aceitar algo que seja inconstitucional e que divida as pessoas com base na religião”. E acrescenta: “A nossa é uma sociedade rica que evoluiu ao longo dos anos com a ideia de unidade na diversidade. Dividir comunitariamente a Índia é um movimento que enfraquecerá a unidade entre o povo.” Kerala tem 55% de hindus, 27% de muçulmanos, e 18% de cristãos.

A Ordem Dominicana dedicou este Dezembro à oração e acção pela paz na Índia. Como disse recentemente o fr. José Nunes a propósito deste Mês Dominicano da Paz: “Pouca gente sabe mas a Índia é um autêntico ‘tsunami’, muitas vezes invisível, mas de uma violência muito grande a muitos níveis: violência política, religiosa, cultural e social”. Dezembro, sabemos, é o mês em que celebramos a chegada do príncipe da paz, o nascimento de Jesus. O prior provincial dos Dominicanos em Portugal conclui: “A paz não é para ser vivida só num mês, é um desígnio universal para ser vivido em todo o tempo e lugar. No fundo, todas as grandes religiões falam disso, todos os homens e mulheres de boa vontade e na nossa cultura defendem a paz”. Para nós, cristãos, o desafio do Natal é, precisamente, fazer germinar a fraternidade no interior da família humana. Como assinalou o Papa Francisco em Fevereiro de 2019 no Encontro Inter-Religioso em Abu Dhabi, isso “requer a coragem da alteridade, que supõe o pleno reconhecimento do outro e da sua liberdade”.

Sessão de Solidariedade com os Povos do Médio Oriente

30.11.2019

A Credibilização dos Sindicatos

29.11.2019

O discurso sobre a suposta “descredibilização dos sindicatos” não é novo. É até muito velho e sabemos a quem tem servido, a quem serve. Os sindicatos que se assumem como sendo instrumentos da classe trabalhadora, que não são agremiações para fazer favores ao patronato, não estão descridibilizados — são descridibilizados, o que é bem diferente. Quando Karl Marx iniciou as suas actividades políticas, estavam a nascer sindicatos assim. O poder instituído defendia a continuação da exploração desenfreada. E a sua resposta foi, precisamente, a descridibilização e, em muitos casos, a ilegalização. Eram organizações que punham em causa a ordem social estabelecida, que queriam transformar a sociedade. Passa-se o mesmo hoje. Quem controla e mantém esta economia que descarta, espezinha, explora, que concentra a riqueza na mão de um pequeníssimo grupo, esta economia que mata, só tem receio de quem lhes faça frente de forma organizada. É possível que quem embarque neste discurso da “descredibilização dos sindicatos” não se aperceba que tal não fortalece estas organizações, mas é utilizado para as tentar enfraquecer. Trata-se também, muitas vezes, de uma observação baseada no desconhecimento ou, então, na ocultação de informação. Os sindicatos estão sempre em dificuldades numa sociedade em que o poder dominante não os valoriza (porque não valoriza os trabalhadores) e raramente os chama para um diálogo efectivo (porque, na prática, os coloca abaixo dos representantes do patronato). Quem esteja realmente empenhado em ver os sindicatos cumprir o seu papel de defesa dos interesses dos trabalhadores, nomeadamente da melhoria das suas condições de vida e trabalho, deve participar neles, dar do seu tempo, colocar-se ao serviço. O que é urgente é contribuir para a credibilização dos sindicatos, fomentar o trabalho de unidade entre dirigentes de diferentes sensibilidades sindicais, aumentar as massas de associados e a sua participação nas discussões e decisões, combater a fragmentação de sindicatos que retira força aos trabalhadores organizados, construir propostas que façam avançar os seus direitos, e mobilizá-los para as lutas que lhes dizem respeito e para a solidariedade com as reivindicações noutros sectores, no plano nacional e internacional. Gostava de ver uma fila imensa de gente disponível para este trabalho dedicado, diário, consequente, que nada tem a ver com fogachos ou iniciativas pontuais.

Dia Internacional de Solidariedade com o Povo Palestino 2019

25.11.2019

Tolerar ou Não Tolerar?

12.11.2019

Os libertários, vulgo liberais, gostam de citar David Boaz: "A diferença entre o libertarismo e o socialismo é que os libertários toleram a existência de uma comunidade socialista, mas os socialistas não podem tolerar uma comunidade libertária." Pode passar despercebido o facto de a frase não mencionar a questão central do estado e a sua natureza de classe. Os libertários toleram o que é inofensivo, o que não altera as relações sociais. Toleram uma comunidade socialista num estado capitalista, mas não podem tolerar um estado socialista (na verdade, como a história demostra, nem nada que se assemelhe a isso), que cria um contexto que muda o sentido do que é existir uma comunidade libertária.

Celebrações

10.11.2019

Cheguei ontem a casa ao fim de um longo dia de viagens. Liguei a televisão e estava a dar uma peça na RTP sobre o derrube do Muro de Berlim, na qual se dizia que a Alemanha tinha sido dividida entre os Aliados e a União Soviética. Assim: como se a União Soviética não tivesse feito parte dos Aliados da Segunda Guerra Mundial, como se não tivesse tido mais baixas do que os EUA e o Reino Unido combinados. Seguiram-se outras afirmações falsas e informações omitidas. Celebrar a queda do Muro de Berlim? Sim, se isso tivesse simbolizado um avanço, um progresso real na história da humanidade. Não foi isso que aconteceu. E os retrocessos sociais que se seguiram vêm acompanhados de uma descarada desinformação. O que valerá a pena celebrar de forma efusiva é o fim da ditadura de classe que sustenta o capitalismo.

Ganhámos uma Camarada

28.10.2019

Durante a última campanha eleitoral, soube de gente que gostava de ter apoiado publicamente a CDU (PCP-PEV) e que não o fez porque estava numa situação precária e receou retaliações. Soube de quem, estando com o PCP, sussurrou nos locais de trabalho a outro votante para que mais ninguém soubesse. É preocupante, mas também de alguma forma sintomático, que tal aconteça à CDU e ao PCP na nossa jovem democracia, com muito para avançar, com a marca da Revolução de Abril mas com o seu ímpeto sempre ameaçado.

É evidente que ninguém vem ao Partido Comunista Português para ter uma vida fácil, cheia de portas abertas, olhares de admiração, e outras coisas que tais. Quem procura essas facilidades e vaidades rapidamente percebe que estará melhor noutro sítio. Quem vem ao PCP, quem nele se inscreve como militante, para ajudar e contribuir, para integrar um colectivo como indivíduo, dá um passo que, em muitos casos, teve de vencer uma barreira de preconceitos e mal-entendidos. Sabe que só a convicção transformadora feita ânimo de muitas mãos e de muitas cabeças a pode manter sem desalento. Desanimar é olhar para baixo, largar os laços da união que fazem a força, que tecem a organização, únicas formas de combater os males estruturais do capitalismo, que continua a gerar contradições gritantes sem capacidade de as resolver. A história não acabou e os comunistas sabem-no, provam-no dia após dia, “mantendo vivos no pensamento e na acção valores básicos elementares como a igualdade de direitos, a generosidade, a fraternidade, a justiça social, a solidariedade humana”, como escreveu Álvaro Cunhal.

Reparem nesta fotografia de David Manso da Festa do Avante!: as crianças brincam como a humanidade sonha, com gestos concretos e criativos. É uma imagem apropriada para este dia tão feliz. Ganhámos uma camarada. Não é caso único e é essa acção, essa resposta, consciente e determinada, que o tempo exige. Ganhámos uma camarada e sem a camaradagem não há Partido nem há futuro digno desse nome. Bem-vinda.