Um Pilar da Democracia

15.06.2018

Sem acesso generalizado a educação de qualidade, a democracia perde fundamento crítico e participação consciente. Torna-se numa sombra de si. Desvanece-se. A educação é um pilar da democracia. Por isso, uma forma de medir o atraso ou o avanço de uma democracia, de determinar a grandeza do seu desenvolvimento, é o modo como se olham os professores: se não dignificados ou não, se são respeitados ou não, se são defendidos ou não. Cada luta justa dos professores em Portugal revela uma imensa solidariedade, nomeadamente de colegas de escola, de estudantes, e de encarregados de educação. Mas demonstra também que ainda temos muito para andar na democratização da sociedade portuguesa. Não podemos desistir de fazer esse caminho.

Negociar e Faltar à Palavra

05.06.2018

Foi bom ouvir Jerónimo de Sousa e Heloísa Apolónia serem claros com o Primeiro Ministro António Costa, insistindo no que está em discussão. E é uma discussão política da maior importância. Não se trata apenas do repugnante ultimato do Ministério da Educação (“ou aceitam a recuperação de 2 anos, 9 meses e 18 dias ou retiramos essa proposta e não aceitamos recuperar tempo nenhum”), mas sobretudo da demonstração de má-fé do Governo. Foi assumido um compromisso em Novembro de 2017, formalizado num artigo no Orçamento do Estado que estabelecia a recuperação “do tempo de serviço” (assim mesmo, com artigo definido e negociado). Nem é preciso mencionar as recomendação aprovadas na Assembleia da República, incluindo da parte do PS, sobre esta questão. O que há a negociar entre os sindicatos e o Governo não é o tempo de serviço a recuperar. Para ver o seu OE aprovado, o Governo concordou que era todo. O que há a negociar é apenas a forma como essa recuperação se dará. Foi porque os sindicatos demonstraram flexibilidade para negociar a recuperação de forma faseada que se chegou a um compromisso no ano passado. Os professores têm toda a legitimidade para esperar a negociação da forma de recuperação e não do tempo recuperado. O Governo está fazer tábua rasa daquilo com o qual concordou.

À Boleia

03.06.2018

À boleia de uma posição política densa, houve quem se dedicasse a escrever coisas verdadeiramente inacreditáveis sobre o Partido Comunista Português nos últimos dias. Coisas que repetem ideias feitas, que revelam ódios de estimação, como se quem as escreveu estivesse apenas à espera de uma desculpa. Coisas que eu nunca escreveria sobre qualquer organização política, não só por pudor, mas por respeito democrático. Coisas como a sobranceria e o paternalismo acerca dos seus membros, o recurso a dicotomias fáceis, o uso de epítetos em vez de argumentos, enfim, o desconhecimento profundo disfarçado de conhecimento simplificado sobre um partido com uma composição transversal onde militam mulheres e homens que trabalham nos mais diversos sectores, com diferentes características, formações, idades, experiências de vida, gostos, com órgãos próprios, democraticamente eleitos e muito activos. O Facebook é uma janela demasiado pequena e virtual onde não é fácil dialogar. A caracterização grosseira agrava essa dificuldade. Na realidade, quem conheça militantes comunistas de carne e osso, quem já tenha colaborado com elas e com eles, quem já tenha visto como estudam os temas, fazem propostas, e intervêm nos órgãos de poder regional, local, e central, considerará esta avalanche de impropérios algo absurdo, a raiar o irracional. No meio de tantas trocas de palavras, demasiadas vezes surdas, encontrei este comentário do insuspeito Rui Zink: “Aliás o PCP tem tradição de ponderar os assuntos com a seriedade devida, prática ética menos óbvia nos outros partidos. E isso não é retirar-lhes seriedade, é apenas que o PC (mesmo quando ‘pensa ou decide errado’) sofre e mastiga um bocado mais a questão em questão.” Para mim, isto rima com algumas boas conversas que fui tendo nos mesmos últimos dias. O resto são coisas que talvez só se expliquem com a força singular e persistente daquilo que se tenta denegrir. Avante.

Spontaneous and Acquired Political Consciousness

24.04.2018

We have not, in our time, moved from socialism to apathy or reaction, whatever the pessimists may consider. We have moved instead from socialism to anti-capitalism. That is hardly much of a shift at all, and one which is in any case entirely understandable in the light of recently actually existing socialism; but it is, even so, a backsliding.

You can attain anti-capitalist consciousness simply by looking around the world with a modicum of intelligence and moral decency, but you cannot attain a knowledge of global trade mechanisms or the institutions of workers’ power in this way. The distinction between spontaneous and acquired political consciousness, whatever historical disasters it may have contributed to, is itself a valid and necessary one.

TERRY EAGLETON, “Lenin in the Postmodern Age”, in Lenin Reloaded: Toward a Politics of Truth

Um Intenso Ódio de Classe

07.04.2018

O Partido dos Trabalhadores (PT) cometeu erros políticos graves, sem que eles apaguem os seus muitos acertos. Mas como escreveu Frei Betto, certeiro, acatou “uma concepção burguesa de Estado, como se ele não pudesse ser uma ferramenta em mãos das forças populares, e merecesse sempre ser aparelhado pela elite”. A instrumentalização política das instituições de poder, a que se assiste desde o golpe, não pode ser desligada desses erros. Seja como for, vale a pena observar com atenção o ódio que sectores da sociedade brasileira (e não só) têm a Lula da Silva. É um intenso ódio de classe. E é isso que há-de ser derrotado com a nossa solidariedade. [Fot. Francisco Proner/Reuters.]

Apelo pela Cultura

06.04.2018

Gente aos montes em Coimbra. Defendem a importância fundamental de um serviço público de cultura para uma democracia plena. A dignidade de quem trabalha no sector. O acesso generalizado aos bens culturais. A luta continua!

O Estranho Silêncio

02.04.2018

Habituámo-nos a ler e a ouvir comentários vindos da direita conservadora e liberal de que as greves no sector dos transportes não existem porque as trabalhadoras e os trabalhadores são obrigados a defender, como força organizada, a sua dignidade face às condições laborais a que estão sujeitos. Não. Existem porque, enfim, as empresas são públicas. Se fossem privadas, tal não aconteceria. (Fica sempre a ameaça no ar de que o direito à greve, que por vezes é a única via de contestação, custando a perda de rendimentos a quem é assalariado, é uma espécie de “regalia”.) Por isso, estranho o silêncio dessas pessoas sobre a greve na Ryanair, uma empresa privada irlandesa. Uma greve que tem escancarado a intimidação a que estão sujeitas as trabalhadoras e os trabalhadores da empresa em greve em Portugal e aquelas que se têm solidarizado com esta luta noutros países. Talvez seja isso: é uma situação em que se vê a face monstruosa do capitalismo que alguma opinião prefere ignorar ou ocultar.

Trabalhadores Precários do Ensino Superior Protestam Contra o Bloqueio do PREVPAP

27.03.2018

Passou por aqui, mesmo agora, um britânico para nos dizer que lá é igual: a ideologia neoliberal a triturar a vida e a dignidade das pessoas. Internacionalismo na prática. Vídeos do protesto aqui.

Anti-Anti-Communism

25.03.2018

This article by Kristen R Ghodsee (Professor of Russian and East European Studies, University of Pennsylvania) and Scott Sehon (Professor of Philosophy, Bowdoin College) on the merits of taking an anti-anti Communism stance is very thoughtful.

I was recently in Slovakia and, if I had lived in socialist Czechoslovakia, I would’ve been a clandestine Christian (and I met people who lived like this), because religious orders were prohibited and I belong to the Dominican Order. This infringed on the fundamental right of freedom of religion. It was quite interesting to listen to people compare the past and the present and tell their different (and sometimes differing) stories. I learned a lot.

As for my comrades, we do well to study socialist experiences openly and not defensively, examining their deviations and crimes, instead of leaving this task to others who are politically motivated to spread the idea that there are no transformative alternatives to the class warfare of capitalism, making use of racism, xenophobia, misogyny, homophobia, and Islamophobia. The Dominican Order is often associated with the Inquisition, even though some notable Dominicans were tried by inquisitional tribunals (e.g., Meister Eckhart). Dominicans are among the most dedicated researchers on this topic today. It makes sense. And how many socialists/communists were tried, convicted or summary killed in socialist countries (e.g., in the Stalinist Great Purge)? I know some are still nostalgic about the Soviet Union and the Eastern bloc — as if they didn’t collapse because they were collapsing internally, despite the fact that this event had destructive consequences, not just in these countries, but also in their capitalist neighbours. That’s a blind and even ahistorical attitute. We need to look to the future and do it with a progressive mind, making sure that socialism never surrenders its commitment to democracy and freedom.

An excerpt:

Conservative and nationalist political leaders in the US and across Europe already incite fear with tales of the twin monsters of Islamic fundamentalism and illegal immigration. But not everyone believes that immigration is a terrible threat, and most Right-wing conservatives don’t think that Western countries are at risk of becoming theocratic states under Sharia law. Communism, on the other hand, provides the perfect new (old) enemy. If your main policy agenda is shoring up free-market capitalism, protecting the wealth of the superrich and dismantling what little is left of social safety nets, then it is useful to paint those who envision more redistributive politics as wild-eyed Marxists bent on the destruction of Western civilisation.

What better time to resurrect the spectre of communism? As youth across the world become increasingly disenchanted with the savage inequalities of capitalism, defenders of the status quo will stop at nothing to convince younger voters about the evils of collectivist ideas. They will rewrite history textbooks, build memorials, and declare days of commemoration for the victims of communism — all to ensure that calls for social justice or redistribution are forever equated with forced labour camps and famine.

Responsible and rational citizens need to be critical of simplistic historical narratives that rely on the pitchfork effect to demonise anyone on the Left. We should all embrace Geertz’s idea of an anti-anti-communism in hopes that critical engagement with the lessons of the 20th century might help us to find a new path that navigates between, or rises above, the many crimes of both communism and capitalism.

A Admirável América

25.03.2018

A América, a admirável América que eu conheço e que tantas vezes o simplismo tenta apagar, inundou Washington DC e outras cidades numa marcha pelas vidas. Foram muitos milhares contra a violência provocada pelas armas de fogo e pelo direito à segurança. [Fot. Salwan Georges.]