A Verdade Liberta

11.02.2016

O jornal Avante! publica hoje um artigo em torno do filme Spotlight (O Caso Spotlight, 2015) assinado por mim. Está acessível aqui.

Capitalism is the Systematic Exploitation of Labor

14.12.2015

In actuality, capitalism is still basically capitalism — and this explains the emergence of the purely superstructural readings of capitalism as a discursive regime held in place by fixed ideas — because of the basic expropriation of labor power from wage workers. All anticapitalist theories that foresee social change being brought about without the abolition of exploitation in the base are in fact sentimental morality tales masquerading as critiques of capitalism (which is what makes “emotional labor” so useful as the imag(in)ed social relations of global melodrama). Capitalism, as classical Marxism explains, is the global mode of social production in which labor has been transformed into a commodity by the total separation of the worker from the means of production. The result of this global expropriation is the class binary (that taboo term of mainstream theory) between exploiters and exploited because it forces those who have only their labor-power to sell to work for those who own the means of production and to produce profit for them or else starve. It is this systematic exploitation of labor that makes capitalism capitalism, not its maintenance of oppressive regimes of labor outside the logic of capital.

STEPHEN TUMINO, Cultural Theory After the Contemporary

Democracia e Cidadania

17.05.2015

De um texto lúcido, e muito actual, de Manuel Gusmão, “Democracia e Cidadania: Nota para um Caderno de Encargos”, publicado no n.º 9 de 2000 do Caderno Vermelho, revista do Sector Intelectual de Lisboa do PCP:

O cidadão pode ser desdobrado em várias figuras, papéis, ou condições. Pode ser visto como um eleitor, um contribuinte, um consumidor, um utente, um morador, um habitante do planeta. Nessas suas qualidades abrem-se espaços de cidadania, espaços de organização e luta, espaços de participação que não podem ser negligenciados. Entretanto há que observar que essa multiplicidade de figuras pode ser construída como uma fragmentação, e uma fragmentação que esconde uma das condições do cidadão, a sua relação com o sistema de produção e de propriedade dos meios de produção. Por aí esconde-se que a indivisibilidade dos direitos implicou (no seu devir histórico) e implica hoje que o trabalho seja reconhecido como fonte de direitos, e que o trabalho sem direitos é uma inaceitável amputação da cidadania, uma amputação que está em estreita relação com a tentativa de mercadorização de todas as esferas da actividade humana.

Desassossego

30.04.2015


No editorial do último número do jornal Voz do Trabalho, publicação da Liga Operária Católica - Movimento de Trabalhadores Cristãos, o coordenador nacional José Augusto Paixão diz que “não podemos ficar sossegados”, escrevendo: “Na passagem de mais um aniversário do 25 de Abril de 1974 e quando avaliamos a desvalorização social e humana que hoje se vive em Portugal, não podemos esquecer que as políticas que provocaram a situação em que nos encontramos são totalmente contrárias às da Revolução de Abril, cujos valores e objectivos visam a democracia participativa, o desenvolvimento civilizacional e humano e a dignidade de todos os cidadãos, o que é preciso reafirmar e defender, para que se possa realizar.”

A “Democracia” no Capitalismo

22.04.2015

A democracia para uma ínfima minoria, a democracia para os ricos — tal é a democracia da sociedade capitalista.

V. I. LÉNINE, O Estado e a Revolução

Cultura, Património do Futuro

21.02.2015

A Cultura enquanto serviço público, assegura o direito de todos à criação e à fruição cultural. E ela pode ser a partilha de um bem comum, porque ela designa não apenas esse bem como banquete já pronto, mas como gesto colectivo de pôr em comum. A Cultura é um imenso potencial de liberdade, criação, resistência e transformação. Para nós, a cultura é efeito e função da liberdade; fermento e agente de transformação. Instrumento e antecipação provisória da emancipação dos trabalhadores e dos povos. A Cultura, tal como a emancipação do trabalho, é parte essencial do património do futuro.

MANUEL GUSMÃO, “Dentro de ti, oh cidade”

A Regra e a Excepção

09.02.2015

A tradição dos oprimidos ensina-nos que o “estado de excepção” em que vivemos é a regra. Temos de chegar a um conceito de história que corresponda a esta ideia. Só então se perfilará diante dos nossos olhos, como nossa tarefa, a necessidade de provocar o verdadeiro estado de excepção [...].

WALTER BENJAMIN, “Sobre o Conceito de História”

Levantamento Revolucionário

07.12.2014

É difícil ler o nome do autor do relatório que levou à proibição do livro de Alves Redol, Gaibéus, no Portugal de 1940. O seu nome importa pouco. Relevante é o seu discurso. Nele está inscrito de forma límpida a ideologia da ditadura fascista e do terrorismo dos capitalistas e grandes agrários que a constituía. O parecer dá a entender que a perigosidade dos revolucionários advém do facto de não serem “humildes [...] perante a brutalidade dos capatazes que os vigiam implacavelmente para que o seu suor se transforme copiosamente em lucro do patrão.” Segundo o texto, a personagem digna de aprovação é aquela que “abafa a sua revolta como um vencido incapaz de lutar contra o infortúnio e contra a desigualdade social existente.” Ontem como hoje, as revolucionárias e os revolucionários rejeitam a resignação face ao autoritarismo opressor dos amos. Levantam-se, dianteira das massas e do povo, encontrando na rebelião contra o silêncio imposto e a exploração humana uma força libertadora e transformadora que dite o avesso desse mundo para lhe dar outra realidade.

Uma Casa Grande

02.11.2014

As autoridades têm olheiras
e estudada voz para os comunicados:
garantiremos a melhor solução entre as partes.
Quais partes? as pudendas?
Destas Deus já cuidou recobrindo de pêlos.
Meu filho era bonzinho.
Nunca ia suicidar conforme disse o polícia.
Pus a mão na cabeça dele, estava toda quebrada,
mataram de pancada o meu filhinho.
As testemunhas sumiram,
perderam os dentes, a língua,
perderam a memória.
Eu perdi o menino.
“...Ele acolhia as turbas, falando-lhes do Reino,
e aos necessitados de cura devolvia a saúde.”
Palavras duras só para os mentirosos, os legistas
que atrelavam aos outros pesados fardos
que eles mesmos nem sequer tocavam...
Ó grito grande que eu queria gritar,
silvos que me esvaísse.
Certos tons, aves domésticas,
casa amarela com portão e flores me excitam,
mas não posso gozar. Tenho que pregar o Reino.
Quero um sítio, uma chacarazinha de nada,
o cristianismo não deixa,
o marxismo não deixa.
Ó grito grande, na frente dos palácios
episcopais e não:
O POVO UNIDO
JAMAIS SERÁ VENCIDO!
Minha piscina não é de lazer, disse o papa.
Não pretendo ser profeta, disse o bispo.
Que grosso cordão, que balde cheio,
que feixe grosso de coisas más.
Que vida incoerente a minha,
que areia suja.
Sou uma velha com quem Deus brinca.
De parelha com iras e vergonhas
meu apetite segue imperturbável,
carnes gordas, farinhas,
prelibo os legumes como a encontros carnais
e tenho medo da morte
e penso nela diuturnamente
como se eu fosse respeitável, séria,
comedida e frugal dama-filósofa.
Se alguém me acompanhar fundo um partido.
Derrubarei o governo, o papado,
dizimarei as casas paroquiais
e fundarei meu sonho:
num cerrado, inúmeros
desciam os frades com seus capuzes
como aves marrons, pacificamente, procuravam um lugar.
Eu os acompanhei até que viram uma casa grande.
Tinha um grande fogão, uma grande mesa,
e todos foram entrando e acomodavam-se,
espalhando-se pela casa
como verdadeiros irmãos.

ADÉLIA PRADO, “O Falsete”

O Amor Combate

01.09.2014

Meu amor que eu não sei. Amor que eu canto. Amor que eu digo.
Teus braços são a flor do aloendro.
Meu amor por quem parto. Por quem fico. Por quem vivo.
Teus olhos são da cor do sofrimento.

Amor-país.
Quero cantar-te. Como quem diz:

O nosso amor é sangue. É seiva. É sol. É Primavera.
Amor intenso. Amor imenso. Amor instante.
O nosso amor é uma arma. É uma espera.
O nosso amor é um cavalo alucinante.

O nosso amor é pássaro voando. Mas à toa.
Rasgando o céu azul-coragem de Lisboa.
Amor partindo. Amor sorrindo. Amor doendo.
O nosso amor é como a flor do aloendro.

Deixa-me soltar estas palavras amarradas
para escrever com sangue o nome que inventei.
Romper. Ganhar a voz duma assentada.
Dizer de ti as coisas que eu não sei.

Amor. Amor. Amor. Amor de tudo ou nada.
Amor-verdade. Amor-cidade.
Amor-combate. Amor-abril.
Este amor de liberdade.

JOAQUIM PESSOA, “Amor Combate”